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O brinquedo e as crianças autistas

Flavia Chiapetta de Azevedo

2 de outubro de 2022

Para a psicanálise, o brincar, além de ser uma atividade lúdica, é também, e principalmente, um processo essencial para a própria constituição do sujeito.

Um bom exemplo disso é a brincadeira, muito comum entre as crianças, de “esconder e achar”. A criança ou se esconde ou esconde um objeto… repetidas vezes. Ela esconde para, em seguida, achar, e geralmente o momento do encontro é acompanhado por um alegre “achoooou”.

Eis que essa simples brincadeira vem representar o Outro materno, inscrevendo o sujeito na ordem simbólica. A mãe, nos cuidados que dispensa à criança, não está presente o tempo todo. A criança, por sua vez, fica assujeitada às emoções de um nascimento e morte renovados nesta alternância materna (presença/ausência). O brincar, neste caso, permite à criança sair da posição passiva e se aventurar no domínio da experiência. A criança brinca de deixar a mãe ir embora, realizando uma renúncia pulsional. Compensa-se da renúncia ao encenar, ela própria, o desaparecimento e o retorno dos objetos.

person holding jigsaw puzzle piece
O brinquedo e as crianças autistas
Foto via Pexels

Assim, o brincar permite à criança representar o mundo que a cerca. Essa grande aventura abre as portas do simbólico, introduz o sujeito na linguagem. A partir destas primeiras representações, a criança é capaz de fazer apelo: o objeto materno é agora chamado quando está ausente.

Uma das principais características do autismo diz respeito, justamente, à ausência de apelo. A falta de apelo no autismo é correlata da ausência de representação.

Quais as consequências desta não simbolização para o “sujeito” autista?

Lacan (1975) alega que os autistas “[…] são simplesmente pessoas para as quais o peso das palavras é muito sério […].”[1] Já que o Outro não é simbolizado, as palavras tornam-se pesadas, são tomadas como coisa.

Vejamos o exemplo de Freud (1915) no texto “O Inconsciente”. Trata-se de uma paciente esquizofrênica, cuja queixa era que seus olhos estavam virados. O “Virador de olhos”, segundo a paciente, caracterizava seu amante, e é uma metáfora da língua alemã – em português equivale a “estar com a cabeça virada”. A metáfora, nesse caso, não opera; e a paciente experimenta no real o peso das palavras. Ou seja, ela experimenta a realidade dos olhos virados, como se alguém tivesse invadido seu corpo, introduzindo a mão em seu globo ocular, virando-lhe os olhos.

Para quem a simbolização não opera, a presença de outros torna-se muito invasora, daí o isolamento no autismo. Nesses casos, o brinquedo, com sua consistência imaginária, adquire outra função: a de intermediar a relação do sujeito com o Outro.

Vejam o caso Joey, publicado por Bettelheim (1967)[2], no livro A fortaleza vazia. A trajetória de Joey é muito interessante porque o menino era um caso grave de autismo – batia com a cabeça na parede, se balançava para trás e para a frente, sem parar… – mas conseguiu se estabilizar através do brincar; ele brincava de construir máquinas. Por exemplo, a cama/carro, construída com fita adesiva, pedaços de arame, etc., tinha volante, carburador, bateria, e cada objeto tinha sua função na mediação com o Outro. Ele se comunicava através de fios que ligavam e desligavam.

O brinquedo, na clínica com autistas, nos permite abordar a criança indiretamente, de forma que a nossa presença não seja tão invasiva.

Como mencionei no início, para a psicanálise o brincar está além de uma atividade lúdica. Tentamos mostrar a importância do brincar na constituição do sujeito e também na direção do tratamento, quando o brinquedo pode ser utilizado para mediar a relação do autista com o Outro.

 

Flavia Chiapetta de Azevedo é analista membro da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro, Doutora em Teoria Psicanalitica/UFRJ, autora do livro O lugar do analista na direção do tratamento com autistas.

[1] LACAN, J. (1975) Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines. In: Scilicet 6/7. p. 45-46. Paris: Seuil, 1976.
[2] BETTELHEIM, B. (1967). A Fortaleza Vazia. São Paulo: Marins Fontes, 1987.

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